Ação pauliana

A Ação Pauliana, também conhecida como ação revocatória, é o instrumento processual utilizado pelo credor para desconstituir (tornar ineficaz) negócios jurídicos fraudulentos celebrados por um devedor insolvente (ou que por eles se tornou insolvente). O seu objetivo é combater a fraude contra credores, permitindo que bens alienados ou onerados pelo devedor retornem ao seu patrimônio, para que possam responder pela dívida. Esta ação protege a garantia patrimonial geral do credor, que é o patrimônio do devedor.

Fundamentação Legal

  • Código Civil
    • Arts. 158 a 165 (Trata especificamente “Da Fraude Contra Credores”)
    • Art. 178, II (Define o prazo decadencial de 4 anos)

Desenvolvimento Teórico

Requisitos

Para que a Ação Pauliana seja bem-sucedida, o credor (autor da ação) deve comprovar a cumulação de três requisitos essenciais:

  1. Anterioridade do Crédito: O autor da ação já devia ser credor à época em que o ato fraudulento foi praticado. A lei excepciona essa regra apenas se a fraude for “preordenada”, ou seja, se o devedor se desfez de seus bens antecipadamente, já com a intenção de contrair dívidas e não pagá-las.
  2. Eventus Damni (O Dano): É o prejuízo efetivo ao credor, caracterizado pela insolvência do devedor. O ato de alienação (venda, doação) ou oneração deve ter levado o devedor à insolvência (quando suas dívidas são maiores que seus bens) ou ter sido praticado quando ele já estava insolvente.
  3. Consilium Fraudis (O Conluio Fraudulento): É a má-fé, o acordo ou a ciência da fraude. A configuração deste requisito varia:
    • Em negócios gratuitos (Ex: doação): Basta provar o eventus damni. A má-fé do devedor é presumida pela lei, e a do terceiro (donatário) é irrelevante (Art. 158, CC).
    • Em negócios onerosos (Ex: compra e venda): Exige-se a prova da má-fé tanto do devedor quanto do terceiro adquirente (o particeps fraudis). A má-fé do terceiro pode ser provada pela ciência da insolvência do devedor ou pela existência de motivos notórios para conhecê-la (Art. 159, CC).
graph TD
    Start(("Ação Pauliana")) --> Req{"Requisitos<br/>Cumulativos"}

    %% Requisito 1
    Req --> Ant["1. Anterioridade do Crédito"]
    Ant --> RegraAnt["Regra: Credor já devia existir<br/>na época do ato"]
    Ant --> ExceAnt["Exceção: Fraude Preordenada<br/>(Intenção prévia de não pagar)"]

    %% Requisito 2
    Req --> Eventus["2. Eventus Damni<br/>(O Dano)"]
    Eventus --> Insolv["Estado de Insolvência"]
    Insolv --> Causa1["Ato levou à insolvência"]
    Insolv --> Causa2["Ato praticado quando<br/>já havia insolvência"]

    %% Requisito 3
    Req --> Consilium["3. Consilium Fraudis<br/>(O Conluio)"]
    Consilium --> TipoNeg{"Qual o tipo<br/>do negócio?"}

    %% Ramo Gratuito
    TipoNeg -- "Gratuito (Ex: Doação)" --> Grat["Art. 158 CC"]
    Grat --> BastE["Basta provar o Eventus Damni"]
    Grat --> PreSum["Má-fé do Devedor: PRESUMIDA"]
    Grat --> Irrel["Má-fé do Terceiro: IRRELEVANTE"]

    %% Ramo Oneroso
    TipoNeg -- "Oneroso (Ex: Compra e Venda)" --> Oner["Art. 159 CC"]
    Oner --> Exige["Exige Prova de Má-fé Bilateral"]
    Exige --> MFDev["Má-fé do Devedor"]
    Exige --> MFTerc["Má-fé do Terceiro<br/>(Particeps Fraudis)"]
    MFTerc --> Prova1["Ciência da Insolvência"]
    MFTerc --> Prova2["Motivos notórios"]

    %% Estilos
    style Start fill:#f9f,stroke:#333,stroke-width:2px
    style Req fill:#ccf,stroke:#333
    style Ant fill:#eef,stroke:#333
    style Eventus fill:#eef,stroke:#333
    style Consilium fill:#eef,stroke:#333

Características Principais

A principal característica da Ação Pauliana é sua natureza desconstitutiva (ou anulatória, segundo parte da doutrina). A sentença não torna o negócio nulo (inválido para todos), mas sim ineficaz (inválido) apenas em relação ao credor que moveu a ação.

É fundamental não confundir a Fraude Contra Credores (instituto de direito material, combatida pela Ação Pauliana) com a Fraude à Execução (instituto de direito processual, Art. 792 do CPC). A Fraude à Execução ocorre quando o devedor aliena bens após já existir uma ação judicial ou execução capaz de levá-lo à insolvência; ela pode ser declarada no próprio processo de execução, sem necessidade de uma ação autônoma.

graph TD
    %% Nó Central
    Central("AÇÃO PAULIANA")
    
    %% Ramo da Natureza Jurídica
    Central --> Natureza{"Natureza Jurídica"}
    Natureza --> Desc["Desconstitutiva ou Anulatória"]
    Desc --> Efeito("Efeito da Sentença")
    
    Efeito -- "O que NÃO acontece" --> Nulo["Não gera Nulidade Absoluta<br/>(Não invalida para todos)"]
    Efeito -- "O que ACONTECE" --> Ineficaz["Gera Ineficácia Relativa<br/>(Inválido apenas em relação ao credor autor)"]

    %% Ramo da Distinção
    Central --> Distincao{"Distinção Fundamental"}
    Distincao --> FCC["Fraude Contra Credores"]
    Distincao --> FAE["Fraude à Execução"]

    %% Detalhes Fraude Contra Credores
    FCC --> DMat["Instituto de Direito Material"]
    FCC --> Meio1["Combatida via Ação Pauliana<br/>(Ação Autônoma)"]

    %% Detalhes Fraude à Execução
    FAE --> DProc["Instituto de Direito Processual<br/>(Art. 792 CPC)"]
    FAE --> Momento["Ocorre quando já existe demanda<br/>judicial em curso"]
    FAE --> Meio2["Declarada no próprio processo<br/>(Desnecessária ação autônoma)"]

    %% Estilização
    style Central fill:#f96,stroke:#333,stroke-width:2px,color:white
    style Natureza fill:#ff9,stroke:#333
    style Distincao fill:#ff9,stroke:#333
    style Ineficaz fill:#9f9,stroke:#333,stroke-width:2px
    style FAE fill:#ddd,stroke:#333,stroke-dasharray: 5 5

Procedimento

Legitimidade Ativa: O credor quirografário (aquele que não possui garantia real) é o principal legitimado. O credor com garantia real (ex: hipoteca) só pode ajuizar a ação se a sua garantia se tornar insuficiente (Art. 158, § 1º).

Legitimidade Passiva: A ação deve ser movida contra o devedor insolvente e contra o terceiro adquirente (que participou do ato fraudulento). Se o bem já foi revendido, os subadquirentes também devem figurar no polo passivo.

Prazo: O direito de anular o negócio jurídico fraudulento decai em 4 (quatro) anos, contados da data em que o negócio foi celebrado (Art. 178, II, CC).

graph TD
    Root(" PROCEDIMENTO DA AÇÃO PAULIANA ") --> L_Ativa{"Legitimidade Ativa<br/>(Quem processa?)"}
    Root --> L_Passiva{"Legitimidade Passiva<br/>(Quem é processado?)"}
    Root --> Prazo{"Prazo e Decadência"}

    %% Ramo da Legitimidade Ativa
    L_Ativa --> Quiro["Credor Quirografário<br/>(Principal Legitimado)"]
    L_Ativa --> Real["Credor com Garantia Real"]
    Real -- "Condição (Art. 158 §1º)" --> Insuf["Apenas se a garantia<br/>tornar-se insuficiente"]

    %% Ramo da Legitimidade Passiva
    L_Passiva --> Litis["Litisconsórcio Passivo Necessário"]
    Litis --> Dev["Devedor Insolvente"]
    Litis --> Terc["Terceiro Adquirente"]
    Litis --> Sub["Subadquirentes<br/>(Se houver revenda)"]

    %% Ramo do Prazo
    Prazo --> Tempo["4 Anos"]
    Tempo --> Tipo["Natureza: Decadencial"]
    Tempo --> Inicio["Início da Contagem:<br/>Data de celebração do negócio"]
    Inicio --> Ref["Art. 178, II, CC"]

    %% Estilos
    style Root fill:#f9f,stroke:#333,stroke-width:2px
    style L_Ativa fill:#ccf,stroke:#333
    style L_Passiva fill:#ccf,stroke:#333
    style Prazo fill:#ccf,stroke:#333
    style Insuf fill:#ff9,stroke:#333,stroke-dasharray: 5 5

Observações Importantes

A sentença favorável ao credor permite que o bem retorne (simbolicamente) ao patrimônio do devedor, para que seja penhorado e utilizado para pagar aquele credor específico que moveu a ação. O negócio, contudo, permanece válido entre o devedor e o terceiro para todos os outros fins.

O pagamento de uma dívida vencida a um credor específico, mesmo que o devedor esteja insolvente, não é considerado fraude contra credores, pois ele está apenas pagando o que deve (Art. 164, CC). No entanto, o pagamento de dívida não vencida pode ser (Art. 162, CC).

A Súmula 195 do STJ estabelece: “Em embargos de terceiro não se anula ato jurídico, por fraude contra credores.” Isso reforça que a Ação Pauliana é o único meio adequado para desconstituir o ato, não podendo a fraude ser alegada como simples matéria de defesa.

graph TD
    Root("OBSERVAÇÕES: AÇÃO PAULIANA") --> Efeitos{"Efeitos da Sentença<br/>Favorável"}
    Root --> Pagamentos{"Pagamento de Dívidas<br/>pelo Insolvente"}
    Root --> Sumula{"Súmula 195 STJ<br/>(Via Adequada)"}

    %% Ramo dos Efeitos
    Efeitos -- "Para o Credor Autor" --> Retorno["Retorno 'Simbólico' do Bem"]
    Retorno --> Penhora["Bem é penhorado para<br/>pagar o autor da ação"]
    
    Efeitos -- "Para Devedor e Terceiro" --> Validade["Negócio Permanece Válido"]
    Validade --> Expl["O ato vale entre eles,<br/>sendo ineficaz apenas<br/>para o credor"]

    %% Ramo dos Pagamentos
    Pagamentos --> DivVenc["Dívida VENCIDA"]
    DivVenc --> NaoFraude["NÃO é Fraude<br/>(Art. 164 CC)"]
    
    Pagamentos --> DivNaoVenc["Dívida NÃO VENCIDA"]
    DivNaoVenc --> PodeFraude["PODE ser Fraude<br/>(Art. 162 CC)"]

    %% Ramo da Súmula 195 STJ
    Sumula --> Embargos["Embargos de Terceiro"]
    Embargos --> NaoServe["NÃO serve para anular<br/>ato por Fraude Contra Credores"]
    
    Sumula --> Conclusao["Conclusão"]
    Conclusao --> UnicoMeio["Ação Pauliana é o<br/>único meio adequado"]
    UnicoMeio --> NaoDefesa["Fraude não pode ser alegada<br/>apenas como defesa em embargos"]

    %% Estilos
    style Root fill:#f9f,stroke:#333,stroke-width:2px
    style Efeitos fill:#ccf,stroke:#333
    style Pagamentos fill:#ccf,stroke:#333
    style Sumula fill:#ccf,stroke:#333
    style NaoFraude fill:#9f9,stroke:#333
    style PodeFraude fill:#f99,stroke:#333
    style UnicoMeio fill:#ff9,stroke:#333

Verbetes Relacionados

  • Fraude contra credores
  • Fraude à execução
  • Insolvência civil
  • Defeitos do negócio jurídico
  • Credor quirografário

Fontes e Bibliografia

  • GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo Curso de Direito Civil, Volume 1: Parte Geral. Saraiva, 2023.
  • TARTUCE, Flávio. Manual de Direito Civil: Volume Único. Método, 2024.
  • GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro, Volume 1: Parte Geral. Saraiva, 2023.