Tema Repetitivo 1251

Reconhecido judicialmente o direito à indenização por danos morais decorrentes de perseguição política sofrida durante a ditadura militar, os juros de mora devem incidir a partir do evento danoso, nos termos da Súmula 54 do STJ.

A questão submetida a julgamento sob o rito dos recursos repetitivos é a seguinte: “definir o termo inicial dos juros de mora, nos casos em que reconhecido judicialmente o direito à indenização, por danos morais, a anistiado político ou aos seus sucessores, nos termos da Lei n. 10.559/2002”.

Nos termos do art. 1º, II, da Lei n. 10.559/2002, ao ter reconhecida a condição de anistiado político, o beneficiado tem direito à reparação econômica de caráter indenizatório, destinada a compensar os prejuízos econômicos sofridos por atos impeditivos do normal desenvolvimento de suas atividades profissionais.

O recebimento da reparação econômica de que trata a Lei n. 10.559/02 não exclui o direito de o anistiado buscar na via judicial a reparação dos danos morais que tenha sofrido em decorrência da mesma perseguição política geradora da reparação administrativa. É o que estabelece a Súmula 624/STJ: “É possível cumular a indenização do dano moral com a reparação econômica da Lei nº 10.559/2002 (Lei da Anistia Política)”.

A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, em relação ao pagamento da reparação econômica, firmou-se no sentido de que a correção monetária e os juros de mora são devidos a partir do sexagésimo primeiro dia contados da publicação da portaria anistiadora, em conformidade com o disposto nos arts. 12, § 4º, e 18, parágrafo único, da Lei n. 10.559/2002. Contudo, a figura da mora a partir do sexagésimo primeiro dia da publicação da portaria anistiadora diz respeito apenas ao pagamento da reparação econômica, prevista no art. 1º, II, da Lei de Anistia Política.

Quanto ao pagamento da indenização por danos morais, é necessário observar o regramento legal previsto para a constituição em mora do devedor nas obrigações extracontratuais. A leitura do art. 962 do Código Civil de 1916 e do art. 398 do Código Civil vigente revela que a própria lei presume o devedor em mora desde o dia em que o ilícito foi praticado. É o que determina, também, a Súmula 54/STJ: “Os juros moratórios fluem a partir do evento danoso, em caso de responsabilidade extracontratual”.

Embora a indenização por danos morais só passe a ter expressão econômica a partir da decisão judicial que a arbitra, a mora que justifica a incidência dos juros existe desde a data em que o ato ilícito foi praticado. No caso em discussão, em que os danos morais são decorrentes de perseguição política sofrida durante a ditadura militar, a responsabilidade da União é extracontratual, decorrente de ato ilícito; portanto, os juros de mora devem incidir desde a data do evento danoso, na linha da pacífica jurisprudência deste Superior Tribunal de Justiça.

Não há fundamento legal que ampare a pretensão de fixar a citação ou o arbitramento como termo inicial dos juros de mora. Tampouco se pode sustentar que a mora da União só foi estabelecida a partir da Constituição de 1988 ou da edição da Lei n. 10.559/2002, pois o que se postula nesta ação é uma compensação pelos danos morais decorrentes de atos ilícitos ocorridos muito antes da promulgação da Constituição vigente.

Assim, fixa-se a seguinte tese do Tema Repetitivo 1251/STJ: “Reconhecido judicialmente o direito à indenização por danos morais decorrentes de perseguição política sofrida durante a ditadura militar, os juros de mora devem incidir a partir do evento danoso, nos termos da Súmula 54 do STJ”.

graph TD
    id1(("Início")) --> id2["Questão Submetida: Tema Repetitivo 1251/STJ"]
    id2 --> id3["Definir termo inicial dos Juros de Mora<br>em Danos Morais a Anistiados Políticos"]

    %% Distinção Principal
    id3 --> id4{"Qual o tipo de verba?"}

    %% Ramo da Reparação Econômica
    id4 -- "Reparação Econômica<br>(Lei 10.559/02)" --> id5["Caráter: Indenização Material/Profissional"]
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    %% Ramo dos Danos Morais
    id4 -- "Indenização por Danos Morais<br>(Via Judicial)" --> id8["Súmula 624/STJ:<br>Permite cumulação com a reparação econômica"]
    
    id8 --> id9["Natureza Jurídica:<br>Responsabilidade Extracontratual"]
    
    id9 --> id10["Fundamentos Legais:<br>1. CC/1916 art. 962 e CC/2002 art. 398<br>2. Súmula 54/STJ"]
    
    id10 --> id11["Raciocínio:<br>A mora existe desde a prática do ato ilícito,<br>independentemente da data do arbitramento"]

    %% Teses
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    id12 -- "Citação, Arbitramento,<br>CF/88 ou Lei 10.559" --> id13["Teses Rejeitadas:<br>Não há amparo legal. O ilícito ocorreu antes."]
    
    id12 -- "Evento Danoso" --> id14["Tese Acolhida:<br>Aplicação da regra geral de ilícitos extracontratuais"]

    %% Conclusão
    id14 --> id15["TESE FIXADA - TEMA 1251"]
    id15 --> id16["Reconhecido direito a danos morais<br>por perseguição na ditadura:<br>Os juros de mora incidem a partir do<br>EVENTO DANOSO (Súmula 54/STJ)"]

    %% Estilização
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Fontes e Bibliografia

REsp 2.031.813-SC, Rel. Ministro Afrânio Vilela, Primeira Seção, por maioria, julgado 10/12/2025. (Tema 1251).

REsp 2.032.021-RS, Rel. Ministro Afrânio Vilela, Primeira Seção, por maioria, julgado 10/12/2025 (Tema 1251).