Lei ordinária

LEI Nº 15.412, DE 20 DE MAIO DE 2026

Ementa oficial

Altera a Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006 (Lei Maria da Penha), para dispor sobre a aplicação das medidas protetivas de urgência em geral e estipular que aquelas de natureza cível constituem título executivo judicial de pleno direito e dispensam propositura de ação principal.

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Ficha do ato

Espécie normativa
Lei ordinária
Órgão emissor
Congresso Nacional
Esfera
Federal
Assinatura
Publicação
· DOU, página 2
Situação
Em vigor
Vigência
desde
Autoridade signatária
Luiz Inácio Lula da Silva
Referenda
Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC); Mulheres (MMULHERES)
URN LexML
urn:lex:br:federal:lei:2026-05-20;15412

Como citar ABNT NBR 6023

BRASIL. LEI Nº 15.412, DE 20 DE MAIO DE 2026. Altera a Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006 (Lei Maria da Penha), para dispor sobre a aplicação das medidas protetivas de urgência em geral e estipular que aquelas de natureza cível constituem título executivo judicial de pleno direito e dispensam propositura de ação principal. DOU: 21 maio. 2026, p. 2. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2026/lei/l15412.htm. Acesso em: 14 out. 2026.

Guia prático para advogados

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1
Autoria
Edpo Augusto Ferreira Macedo

Quadro Terminológico, Conceitual e Normativo

A análise dogmática da Lei nº 15.412/2026 impõe a fixação estrita dos institutos processuais e materiais alterados na Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), atendendo às leis da definição.

                      [ TÍTULO EXECUTIVO JUDICIAL ] (Gênero)
                                    │
                                    ├── Diferença Específica: Origem em procedimento
                                    │   protetivo sumário autônomo de urgência
                                    ▼
       [ MEDIDA PROTETIVA DE URGÊNCIA DE NATUREZA CÍVEL DE PLENO DIREITO ] (Espécie)
                                    │
             ┌──────────────────────┴──────────────────────┐
             ▼                                             ▼
   [ Prestação de Alimentos ]                    [ Demais Obrigações Cíveis ]
(Provisionais / Provisórios)                  (Posse, restituição de bens, etc.)
  • Medida Protetiva de Urgência de Natureza Cível: Espécie de provimento jurisdicional mandamental-satisfativo e cautelar, deferido no microssistema de tutela da mulher vítima de violência doméstica e familiar, voltado a resguardar a integridade patrimonial, existencial e material da ofendida e de seus dependentes.
  • Título Executivo Judicial de Pleno Direito: Documento dotado de eficácia executiva ex lege por força de decisão interlocutória ou sentença proferida no âmbito de tutela protetiva de urgência, o qual ostenta liquidez, certeza e exigibilidade automáticas para fins de cumprimento de sentença, independentemente do ajuizamento de ação principal de conhecimento ou de processo autônomo.
  • Tutela Específica e Providências de Resultado Prático Equivalente (§ 4º): Conjunto de medidas indutivas, coercitivas, mandamentais ou sub-rogatórias determinadas pelo juízo para assegurar a efetivação fática da prestação devida (obrigação de fazer, não fazer ou dar), mitigando a adstrição estrita à literalidade do pedido inicial formulado pela vítima.
  • Desambiguação e Polissemia (“Autonomia e Instrumentalidade”):
    • Eficácia Cautelar vs. Eficácia Satisfativa: A medida protetiva cível não se subordina mais à regra geral da acessoriedade cautelar estrita (CPC, art. 308). Configura processo autônomo satisfativo-protetivo dotado de executoriedade direta e definitiva enquanto persistir o risco ou enquanto não modificada pelo juízo cível/de família competente.

Inovações de Direito Material e Dogmática Aplicada

Métodos Hermenêuticos e Interpretação Normativa

  • Interpretação Sistemática: A inserção dos §§ 4º e 10 no art. 22 da Lei nº 11.340/2006 alinha o microssistema protetivo ao regime geral de efetivação de tutelas específicas (arts. 497, 536 e 538 do CPC) e de títulos judiciais (CPC, art. 515, I). Cria-se um subsistema célere em que a decisão proferida pelo Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (ou vara criminal com competência cumulativa) projeta efeitos executivos imediatos sem necessidade de aforamento de ação civil principal (como a ação autônoma de alimentos pela Lei nº 5.478/1968).
  • Interpretação Teleológica e Finalística: O escopo da norma reside na eliminação da dupla vitimização processual (evitando a via-crúcis de exigir da vítima a contratação de novo patrono ou ajuizamento concomitante de ação de família para executar alimentos ou verbas fixadas emergencialmente). Busca-se eficácia material imediata no combate à dependência econômica e à asfixia patrimonial gerada pelo agressor.
  • Interpretação Constitucional: A alteração materializa o mandado de tutela qualificada do art. 226, § 8º, da CF/88 (dever do Estado de criar mecanismos para coibir a violência no âmbito familiar) e a garantia de razoável duração do processo e efetividade da jurisdição (CF/88, art. 5º, LXXVIII).

Modais Deônticos do Texto Normativo

  • Obrigação (Dever Vinculante):
    • O magistrado concederá a tutela específica ou determinará providências de resultado prático equivalente (art. 22, § 4º). A lei afasta a inércia judicial e impõe atuação positiva de ofício ou a requerimento.
    • O juízo da execução e terceiros devem reconhecer a eficácia de título executivo judicial de pleno direito das medidas cíveis, restando vedada a extinção por ausência de ação principal de conhecimento.
  • Permissão (Faculdade Instrumental):
    • É permitido à vítima instaurar o cumprimento de sentença diretamente, elegendo os meios executivos típicos e atípicos disponíveis no ordenamento processual comum.
  • Proibição (Interdição):
    • É vedado ao órgão jurisdicional extinguir a medida protetiva deferida ou cessar sua eficácia sob o argumento de preclusão ou decurso do prazo de 30 dias sem propositura da ação principal (CPC, art. 309, I).

Regime de Transição Temporal da Norma

  • Vigência Imediata: Publicada e com vigência imediata (Lei nº 15.412/2026, art. 2º), aplicando-se o princípio tempus regit actum e o isolamento dos atos processuais (CPC, art. 14).
  • Aplicação a Processos em Curso: As decisões protetivas de natureza cível já concedidas e não adimplidas passam a ostentar status de título executivo judicial de pleno direito a partir da vigência da lei, viabilizando o manejo direto de cumprimento de sentença sem necessidade de ratificação ou ajuizamento de nova ação ordinária.
  • Não Retroatividade In Pejus Criminal: Em relação a reflexos penais indiretos (eventual incidência do crime de desobediência do art. 24-A da Lei nº 11.340/2006 por descumprimento de ordem protetiva cível), aplica-se a estrita irretroatividade penal (CF/88, art. 5º, XL) a fatos anteriores à inovação legislativa.

Reflexos e Estratégia Processual

Dinâmica Postulatória e Decisória

Variável ProcessualConfiguração Pré-ReformaNovo Paradigma (Lei nº 15.412/2026)
Exigência de Ação PrincipalRisco constante de extinção da medida cautelar se não proposta ação principal de família/cível em 30 dias.Dispensa expressa e absoluta de propositura de ação principal; medida autônoma e autoexecutável.
Execução de AlimentosNecessidade frequente de ação de alimentos própria para fixação de título exequível ou homologação.A decisão interlocutória/cautelar de alimentos provisionais constitui título executivo judicial imediato.
Rito Executivo CabívelDúvida sobre cabimento de rito da prisão (CPC, art. 528) em cautelar criminal/protetiva.Cumprimento de Sentença direto (CPC, art. 523 ou art. 528 sob pena de prisão/penhora).
Poder Geral de EfetivaçãoAplicação tímida ou restrita a pedidos genéricos na petição inicial da ofendida.Imposição de tutela específica ou resultado prático equivalente com amplos poderes atípicos (§ 4º).

Competência Jurisdicional

  • Fixação e Liquidação: Competência originária do Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (ou vara cumulativa) para deferimento da medida protetiva e arbitramento dos alimentos provisionais ou providências patrimoniais.
  • Execução:
    • Opção 1 (Foro Especial da Violência Doméstica): Processamento incidental do cumprimento de sentença perante o próprio juízo protetivo, assegurando unidade de cognição e celeridade executória.
    • Opção 2 (Vara de Família/Cível Comum): Distribuição de cumprimento de sentença por carta de sentença/certidão de crédito no foro de domicílio da vítima perante o juízo de família competente, para adoção do rito do art. 528 (prisão civil) ou art. 523 do CPC.

Tipologia Argumentativa Forense

                                  [ TIPOLOGIA ARGUMENTATIVA ]
                                               │
             ┌─────────────────────────────────┼─────────────────────────────────┐
             ▼                                 ▼                                 ▼
    [ Argumento A Fortiori ]          [ Argumento A Simili ]         [ Cessante Ratione ]
  Se a cautelar gera título,      Aplica rito do art. 528 CPC      Sem prazo decadencial do
   com mais razão autoriza        às astreintes e medidas cíveis    art. 309 CPC; a razão da
  mecanismos de coerção atípica       de entrega de bens              acessoriedade cessou
  • Argumento A Fortiori (com maior razão): Se o legislador conferiu à decisão protetiva a força máxima de “título executivo judicial de pleno direito”, com muito mais razão decorre daí o dever do juízo de aplicar de plano as medidas indutivas, coercitivas e mandamentais (como desconto em folha, bloqueio BACENJUD/SISBAJUD imediato e penhora) sem prévia caução ou contraditório diferido (§§ 4º e 10).
  • Argumento A Simili (por analogia): Sendo a medida protetiva de alimentos cível título judicial equiparado à sentença civil condenatória de alimentos, aplica-se analogicamente e diretamente todo o regime sancionatório de prisão civil do art. 528 do CPC ao devedor de alimentos fixados na esfera protetiva da Lei Maria da Penha.
  • Argumento Cessante Ratione Legis, Cessat Ipsa Lex (cessando a razão da lei, cessa a própria lei): Superada a natureza estritamente provisória-dependente pelo advento do § 10 do art. 22, não incide a regra de caducidade do art. 309, I, do CPC. O término do prazo de 30 dias não extingue o título executivo consolidado.
  • Refutação de Contra-Argumento Adversarial:
    • Tese da Defesa/Devedor: Alegação de nulidade da execução por ausência de contraditório pleno ou formação de coisa julgada material em cognição exauriente.
    • Refutação: A lei estabelece expressamente a qualidade de título judicial “de pleno direito” a partir do provimento de urgência, sendo a cognição sumária característica deliberada do microssistema tutelar protetivo, cabendo ao executado impugnar apenas as matérias estritas do art. 525 ou art. 528, § 3º, do CPC (como impossibilidade absoluta de pagamento ou quitação).

Metodologia de Construção de Artefatos Documentais

Matriz Estrutural para Petição de Cumprimento de Sentença / Pedido Protetivo

   ┌─────────────────────────────────────────────────────────────┐
   │                    1. TESE (Fatos e Provas)                 │
   │  - Relação de violência doméstica / vulnerabilidade         │
   │  - Decisão que deferiu alimentos/medida protetiva cível     │
   │  - Inadimplemento e mora do devedor / demonstração do risco │
   └──────────────────────────────┬──────────────────────────────┘
                                  ▼
   ┌─────────────────────────────────────────────────────────────┐
   │             2. ANTÍTESE (Dogmática e Jurisprudência)        │
   │  - Lei nº 15.412/2026: Título executivo de pleno direito    │
   │  - Art. 22, §§ 4º e 10, Lei 11.340/06 (dispensa de ação)    │
   │  - Art. 528 / Art. 497 do CPC (tutela coercitiva/específica)│
   └──────────────────────────────┬──────────────────────────────┘
                                  ▼
   ┌─────────────────────────────────────────────────────────────┐
   │                   3. SÍNTESE (Requerimentos)                │
   │  - Intimação pessoal para pagamento em 3 dias sob prisão    │
   │  - Deferimento de tutela de resultado prático equivalente   │
   │  - Desconto em folha e busca de ativos patrimoniais         │
   └─────────────────────────────────────────────────────────────┘

Modelo de Redação Analítica

I. Tese (Narrativa Fática e Probatória)

“A Exequente é vítima de violência doméstica e familiar perpetrada pelo Executado, tendo sido deferida em seu favor, por este douto Juízo, medida protetiva de urgência nos autos do Processo nº [Número], que fixou alimentos provisionais no importe de [Valor/Percentual] em favor da ofendida e de seus filhos menores. Não obstante regularmente intimado da decisão concessiva em [Data], o Executado permanece em mora contumaz desde [Mês/Ano], totalizando o débito líquido de R$ [Valor], conforme memória discriminada de cálculo acostada, sujeitando a vítima a grave desamparo material.”

II. Antítese (Fundamentação Dogmática e Hermenêutica)

“Com o advento da Lei nº 15.412/2026, o art. 22, § 10, da Lei nº 11.340/2006 passou a dispor peremptoriamente que as medidas protetivas cíveis, inclusive as de alimentos provisionais ou provisórios, constituem título executivo judicial de pleno direito, dispensando a propositura de ação principal.

A inovação legal supera em definitivo qualquer exigência de ajuizamento de ação autônoma no juízo de família para conferir exequibilidade ao comando judicial. Concomitantemente, o § 4º do aludido art. 22 determina que o magistrado conceda a tutela específica ou adote providências que garantam o resultado prático equivalente, autorizando a cumulação de mecanismos coercitivos do art. 528 c/c art. 536 do Código de Processo Civil para assegurar a solvência imediata do encargo.”

III. Síntese (Pedidos e Requerimentos Estruturados)

“Ante o exposto, requer a Vossa Excelência:

  1. O processamento do presente Cumprimento de Sentença, com base no art. 22, § 10, da Lei nº 11.340/2006;
  2. A intimação pessoal do Executado para que, no prazo de 3 (três) dias, pague a quantia devida de R$ [Valor], prove que o fez ou justifique a impossibilidade absoluta de efetivá-lo, sob pena de protesto do pronunciamento judicial e decretação de sua prisão civil por 1 (um) a 3 (três) meses, na forma do art. 528, §§ 1º e 3º, do CPC;
  3. Subsidiariamente e como tutela de resultado prático equivalente (art. 22, § 4º da Lei nº 11.340/2006), a expedição de ofício ao empregador do Executado para desconto direto em folha de pagamento ou o bloqueio de ativos financeiros via SISBAJUD.”

Identificação de Lacunas e Tomada de Decisão Estratégica

Ponto de Indeterminação NormativaAnálise da LacunaVariáveis de Decisão Estratégica do Advogado
Juízo Competente para o CumprimentoA Lei nº 15.412/2026 dispensa a ação principal, mas silencia se a fase executiva ocorre obrigatoriamente no Juizado de Violência Doméstica ou na Vara de Família.Decisão A: Executar no Juizado de Violência Doméstica (vantagem: celeridade e proximidade com as medidas criminais conexas).
Decisão B: Extrair certidão e executar na Vara de Família (recomendável se houver bens imóveis complexos a penhorar).
Rito Executivo dos Alimentos ProvisionaisA lei não restringe a modalidade executiva (art. 528 – rito da prisão vs. art. 523 – rito da penhora/expropriação).Decisão A: Adotar o rito coercitivo de prisão (CPC, art. 528) para as últimas 3 parcelas e vincendas.
Decisão B: Adotar o rito de penhora e expropriação (CPC, art. 523) com pedido de medidas atípicas (§ 4º) para débitos pretéritos consolidados.
Duração e Modificabilidade do TítuloComo a medida independe de ação principal, a definitividade do valor fixado pode gerar questionamentos de coisa julgada.Estratégia para a Autora: Manter a cobrança até que o réu ingresse com ação de exoneração/revisional.
Estratégia para a Defesa: Ajuizar ação revisional autônoma na Vara de Família com pedido de tutela provisória para readequar o valor do binômio necessidade-possibilidade.

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Assuntos Medida protetiva de urgência de natureza cível, Título executivo judicial de pleno direito, Tutela específica e providências de resultado prático equivalente